Manoel Severino Martins - Mané Pitunga
Agostinho Gomes é rabequeiro e construto de instrumentos. Nasceu em 1929, em Rio Vermelho, localidade do distrito do Ariri, em Cananéia. É filho de Dária Alves Gomes e Jose Silvino Gomes. Seu pai era violeiro e, apesar de não fazer instrumentos, sabia trabalhar com madeira, construindo canoas, remos e gamelas. Alguns de seus irmãos sabiam tocar rabeca e viola.
"Um era Silvino, Silvino Gomes, Júlio Gomes, José Gomes, que sabiam tocar viola. Silvino e José sabiam tocar rebeca, mas, quando tocavam rebeca, eu era um piazinho assim, que nem pegar na rebeca não deixavam pegar, pra ver. Guardavam a rebeca lá em cima pra mim não quebrar."
Agostinho começou a aprender a talhar a madeira com o pai e depois seguiu caminho sozinho.
"Eu sei fazer... Nem me lembro até o que eu sei fazer! Eu sei fazer canoinha, faço caiaque, faço prancha, faço passarinho, faço peixe e golfinho, faço espingardinha, faço papa-vento – põe no vento, o vento vira, papa-vento, né? – faço bengala, faço bordão (...) Também faço casa, de madeira também (...) Instrumento musical, eu sei fazer rebeca, sei fazer estezinho aqui também (cavaquinho). Quando tinha fôrma, antigamente, mais atrás, eu fazia viola também, na fôrma, que a viola precisa da fôrma pra fazer. Faz de cocho, mas de cocho fica muito pesado demais a viola, né? Os Pereira fazem de cocho, fica viola pesada... Eu gosto de fazer de cocho. Eu fazia de aro".
O primeiro instrumento que aprende a fazer foi machete, com cerca de dez anos de idade. Aos quinze anos, pediu para o pai uma rabeca e começou a fazer e tocar rabeca.
"Eu comprei uma rebeca, aprendi a tocar nela. Não sabia nada. Ali, num mês eu comecei a tocar a rebeca já. Mas eu tinha as músicas da rebeca tudo encasquetada, porque eu escutava a rebeca quando passava bandeira. Encasquetava aquela música na cabeça. Quando eu peguei a rebeca, já tava tudo aqui. Deu certo, né?"
Este mesmo instrumento, com o qual aprendeu a tocar, serviu – lhe de fôrma para fazer a primeira rabeca.
"Foi dali que comecei a ter idéia de fazer. Era uma rebeca muito grande, muito boa e muito feia também, né? Comecei a tocar ali. Tocar, tocar, tocar... Passou um mês, já fazia uma nota boa nela já, aí pensei: “Essa aí eu faço”, pensei pra mim. Derrubei uma madeira lá, tirei o machado nele, foi indo, fiz a rebeca. Toque nela e saiu boa também. Ai fui fazendo. Ai a pessoa queria um, outro queria também. Fui fazendo. Eu fazia só de cocho. Depois tentei, vi uma feita de aro, no tempo da bandeira. Peguei na rebeca deles, vi que era feita de aro não era de cocho , resolvi fazer uma de aro também. (...) Eu fiz a fôrma, eu que fiz – eu fazia de cocho, depois passei a fazer de aro. Eu fiz a fôrma, tirei o sarrafinho. Como é que eu pensei: “Como é que eu vou pôr na fôrma? Pra colar, depois não sai. Como é que eu vou fazer? Garrei, furei igual como tá aquilo ali. De mim mesmo ninguém disse “Faça assim, faça assado”. Depois serrei o arinho interno. “Como é que vou colar?” Não tem com quê colar.” Garrei, fui no mato. Pensei de mim mesmo, que quando a gente fazia derrubada, tinha feito muito jacatirão, que tem hoje por ai, que chamam quaresma, flor do natal. Tem muito pelo morro. Então, a gente cortava ela, ela tinha grude, grudava na mão da gente assim. Eu pensei: “ Se fizer uma cola disso daqui, deve ser bom”. Fiz o teste: peguei ela, tirei a casca dela, tirei o limo dela, raspei bem raspado, moí bem moído, peguei duas tabuinha, pus na pressão, No outro dia fui ver, não dava pra tirar. Eu digo: “É você mesmo!”, fiz a cola dessa madeira que tem no mato. Pode molhar que não sai (...) Aí comecei a colar com essa cola. Boa mesmo. Aí fiz o arinho de dentro, ali não pode colar, porque é fininho o aro de fora. Então tem que encostar um no outro pra ficar grosso. Vou por aí, né? E quando eu vinha em casa da minha avó, que morava perto da Praia do Meio, que é Maruja hoje, eu levava sumbaré. Sumbaré é uma planta que tem na beira do mar, na praia. A gente arranca ele, na minguante, assa ele embaixo da cinza do fogo, depois tira ele e raspa ele assim, fica uma cola boa. É assim que o fabricante ali do Maruja colavam viola".
Além de Paulo Rodrigues e Elísio Rodrigues, construtores de instrumento da Ilha do Cardoso, Agostinho lembra outros bons construtores da época em que era menino, como Adauto Pereira, pai de Franklin Pereira, Juvenal Caxeta e Silvinho, de cujo sobrenome ele não se recorda
Agostinho começou a freqüentar fandangos também aos quinze anos. O primeiro baile em que esteve foi no Varadouro, na Baixada do Morro do Gato, onde tocavam os violeiros Erundino Costa, do Paraná e João Gonçalves, do próprio Varadouro.
"Foi nesse fandango que eu comecei a dançar. Só lixado, não sapateava ainda (...) Eu tinha vergonha de dançar. Muita vergonha, muita vergonha. Ai veio uma lá: “Vamos dançar, moço, vamos dançar?”. Minha irmã me levou e fez eu dançar com ela. A dama que me tirou ainda! Mas também, desse dia em diante, eu comecei a dançar. Amanheci dançando nesse fandango".
Logo em seguia, aprendeu o batido, com tamanco no pé, dançando devagarzinho, no meio de quem sabia.
"Lá tinha meu irmão, chamava-se Júlio Gomes, tinha Afonso Barbosa, tinha João Pereira, Zacarias, César Pontes.... Tudo era mestre. Ali na roda pode tá cinco mestres, mas só um é mestre, só um que começa. A hora de bater, só um mestre que começa e os outros mestres vai atrás, e quem não sabe também vai no mesmo caminho. Só um bate primeiro".
Agostinho também aprendeu a tocar reiada e romaria de bandeira. Chegou a sair uma vez com rabequeiro de uma das bandeiras de Cananéia.
"Eu sai uma vez só. Sai daqui pra Superagui. Ilha das Peças, tudo eu andei com a bandeira, (...) Essa bandeira ia pra lá mesmo, por Sul. Sai daqui pro Sul, peguei uma bandeira aqui e fomos embora. Ilha das Peças, Superagui, Canudal, Barbado, Laranjeira, tudo aqueles lado por lá. Eu tocando rebeca. O mestre era o finado Jacaré".
No Rio Vermelho, Agostinho vivia da roça. Plantava arroz, feijão, mandioca e milho. Quando precisava de outras coisas, buscava no centro do Ariri.
"Buscava no Ariri. Quando eu era pequeninho, não tinha caminho. O caminhão era o rio de água doce que saia do pé da selva e desaguava na maré. No Ariri, ia por canoa, descia por canoa e subia por canoa. Canoa carregada. Meu pai na canoa, eu também na canoa com ele, com um reminho pequeninho, também remava com ele. Pra batizar uma criança, era difícil ter um padre. Carecia saber quando o padre de Paranaguá tava em Ararapira para ir batizar uma criança. Meu pai já levava um maço, quando ia batizar".
Agostinho casou-se em Ararapira, na Ilha Superagui, com Ilza Alves Gomes, a Zizinha. Com ela, teve um filho, Jolimar, que apesar de gostar de fandango, não aprendeu a tocar nenhum instrumento, No Rio Vermelho, morou até completar quarenta anos de idade.
"O motivo de sair de lá foi porque a gente não podia trabalhar no mato mais. Não podia cortar madeira, lavrar a terra... Então, saiu todo mundo. Ninguém podia fazer mais nada no mato, que fazia qualquer roça, era embargado. Não podia fazer mais nada. Então, eu já sabia alguma coisinha quando tava lá, vim pra cá".
Mudou-se para o bairro de Carijó, o próximo ao Centro de Cananéia, e começou a trabalhar em firmas de construção como carpinteiro. Mais tarde aposentou-se e passou a complementar a renda com artesanato. Agostinho deu aula de artesanato caiçara para estudantes do município e foi a São Paulo ministrar uma oficina no SESC sobre construção de rabeca.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006
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Antonio Pinto Fernandes, nascido no Sitio Cobra, Aurora em 18 de Outubro de 1922, é agricultor, carpinteiro e luthier. Reside na Cidade de Aurora, no Cariri Cearense, é casado com dona Galega, ou como é mais conhecida “Dona Galega do Carvão”, por seu trabalho de vendedora de carvão.
Homem engenhoso e criativo por necessidade e por natureza.
Seu pai José Pinto Fernandes, pedreiro e também carpinteiro, além de muitas outras artes, dominava o ofício de fazer e tocar rabeca. Possuía uma pequena forma, que servia de molde para fabricar os instrumentos. Com uma das rabecas feitas pelo pai, mestre Antonio, ainda criança, foi pro mato munido apenas de um facão (nada adequado para sua idade), e lá aprendeu a construir suas rabecas. Foi aperfeiçoando seu ofício de forma intuitiva, utilizando o que tinha nas mãos e por vezes “emprestando” as ferramentas do pai.
A Rabeca
Mestre Antônio morou por um período em Minas Gerais, e apesar de dizer que não conheceu rabequeiros por lá, suas rabecas possuem uma semelhança muito grande com as produzidas naquele Estado no que diz respeito ao tamanho e formato. Algumas peculiaridades também diferem suas rabecas das demais encontradas no Ceará, como por exemplo, o estandarte feito de chifre de boi, ou o rabicho (peça que prende o estandarte) feito de metal de maçaneta de porta. Na região do Cariri normalmente o estandarte é feito de madeira e o rabicho de corda, arame ou couro.
Suas ferramentas são uma obra de arte a parte: ele mesmo as constrói e as reinventa, adequando às suas condições e necessidades. Um bom exemplo é de uma máquina de costura velha que ele desmontou e fez uma tico-tico (foto ao lado), trocando a agulha por uma lamina de cortar madeira; ou uma lixadeira feita a partir de uma lata cheia de furos presa à um motor de enceradeira. Ainda utiliza facas velhas e tesouras que passam a ter outras funções na sua oficina.
A madeira usada por ele é o cedo. Suas rabecas são de “cocho”, possuem alma e tem 4 cordas (de aço para violão). Pode ser considerada grande, tanto no comprimento (62 cm) quanto na largura do corpo, tendo como características um som cheio e grave. As cravelhas e o cavalete são de madeira escura e dura. A lateral é cortada com sua tico-tico, formando uma peça única; o tampo superior é cavoucado com formão até ficar com o formato abaulado; a voluta de seu instrumento é esculpida com uma pequena tesoura ou faca velha; os arcos possuem uma cravelha na parte inferior para regular a tensão da crina (utiliza a crina de cavalo).
Tem preferência pela cola de couro, mas devido à dificuldade encontrá-la, atualmente usa cola branca. O acabamento é dado com verniz sintético ou goma laca também chamado de “casca de barata”.
O Mestre já foi um exímio tocador, levantando poeira no baile até o dia amanhecer. Hoje quase não toca, mas depois de alguns pedidos ele ainda arrisca uns forrós. Ganhou o título de “Mestre da Cultura” concedido pelo Governo do Estado do Ceará.
Alguns de seus filhos moram em Juazeiro, empregados numa madeireira. Lidam diariamente com a mesma matéria prima usada por Mestre Antônio, mas nenhum deles seguiu os passos do pai.
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O fandango tem que ter o tocador, tem que ter inventador de verso.
Aorélio Domingues constrói e toca rabeca, e toca também viola. Nasceu em 1977, em Paranaguá, e vem se destacando por sua atuação em prol do fandango no município. É também artista plástico e fundador da Associação de Cultura Popular Mandicuéra.
“Comecei bem cedo. Eu me interessei mais pela construção. Gostava de ver avô tocando, minha avó cantando versinhos de fandangos, minha mãe... Então, fandango sempre foi muito presente lá dentro de casa. E quando eu morava ali na região do Canarinho, também tinha um pouco dos Pereira, que morava ali. Aqui tem muito Pereira. E tinha ali os Costa, os Mendonça, os Alves, Moreira... O pessoal fazia muito fandango ali. (...) Na época eu já desenhava, então, na verdade, eu ia lá pro fandango pra desenhar eles. (...) Eu gostava de ter esse contato com o fandango. Eu retratava o fandango, e automaticamente o som, o batido, essa manifestação toda ficou na minha cabeça desde pequeno”.
O avô de Aorélio, Rodrigo Domingues, era construtor e tocador de rabeca.
“O meu avô me ensinou a conhecer as madeiras que tinham para construção de rabecas e também me ensinou a cavoucar.... Mas a rabeca, não só a rabeca, mas tudo que a gente faz, acaba sendo professor da gente, né? Porque o que a gente aprende é um pouquinho e, depois, com o treino, fazendo e refazendo, e pensando em cada uma que você vai fazer é que você vai aprendendo. Eu mesmo, com essa última rabeca aqui que eu fiz, eu aprendi muito do som dela. Eu sei hoje, já faço idéia de como fazer uma rabeca com som mais alto, mais baixo... Então isso eu já consegui aprender sozinho”.
Além da técnica, Aorélio aprendeu com os mais velhos algumas simpatias sobre a rabeca.
“Antes de botar o tampo dela, você coloca uma cigarra dentro e deixa ela no sereno da lua minguante. Na hora que fechar ela vai ter um som bom. Bom até deixar a cigarra ali dentro, porque a cigarra ela grita, é um bicho que canta alto”.
Para tocar rabeca, Aorélio contou com os ensinamentos de Eugênio Santos.
“Eu já tinha uma certa intimidade com a rabeca. Não tocava, mas já sabia um dondonzinho, uma chamarrita, já dava pra acompanhar. Ai eu fui lá e comecei a ensaiar com Seu Eugênio. Daí a gente aprende mais, vai achando mais nota, logicamente. Eu sei que essa história toda de toque, fandango, tem uns quinze anos pra mim”.
Aorélio ajudou Eugênio na organização do grupo de fandango e na construção da Casa de Fandango. Em 1998, revitalizou a romaria do Divino Espírito Santo de Paranaguá, que segundo ele, ficou mais de cinqüenta anos sem sair pelo município
Aorélio foi Diretor de Cultura da Fundação Municipal de Cultura de Paranaguá. Participou do livro Tocadores, lançado em 2002. Em 2003, integrou o espetáculo Mestre Eugênio e Tocadores de Paranaguá, que correu o pais através do projeto Sonora Brasil, realizado pelo Departamento Nacional do SESC (Serviço Social do Comercio).
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006.
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Davino Jorge de Aguiar é construtor de instrumentos e toca viola, rabeca e cavaquinho. Nasceu no ano de 1937, em Cananéia. É filho do violeiro Bernardino de Aguiar e de Luisa Camilo Borges,foi criado pela avó Josefina Camilo. Aos dezoitos anos, já freqüentava fandangos nas casas de Antonio Pires e Carmo. Aprendeu a tocar sozinho, vendo fandangueiros mais velhos tocarem.
“Era um tal de Maneco, outro era Otacílio e dois caras de Itapitangui. Um era Alexandre e o outro era Anastácio Soares, também que morreu. Só esses, só. Moravam lá na vila do Arrepiado, para lá de Itapitangui”.
Aos vinte e dois anos, Davino fez sua primeira viola de fôrma desenhada em papel de jornal. Em geral, ele demora cerca de dez dias pra fazer uma viola e uma semana para fazer uma rabeca, Calcula que já tenha feito mais de cem violas e cinqüenta rabecas para vender. Antonio Neves da Ilha do Cardoso, e Armando Teixeira, de Cananéia, tocam em violas feitas por ele.
“Não sou de mentir, Vai violar pra São Paulo, vai pra Santos.... Toda parte. Só em Cananéia, tem mais de umas vinte vendidas”.
Umas de suas rabecas foi usada pelo músico e professor da Universidade de Campinas (SP) José Eduardo Gramani, na gravação do CD Mexericos da Rabeca, lançado em 1996.
(A Rabeca de Davino foi a primeira adquirida por José Eduardo Gramani, presente dado pela também musicista e pesquisadora Ana Maria Kiefer. Gramani era violinista e, a partir da então, despertou nele um grande interesse pelo instrumento, chegando a reunir cerca de trinta rabecas de vários lugares do Brasil. Gramani nunca soube ao certo a origem de seu primeiro instrumento, que ganhou o apelido de “Aninha” e aparece no CD Mexericos da rabeca como sendo procedente de Iguape. A verdade origem de sua primeira rabeca só foi confirmada após o falecimento de Gramani, a partir da comparação desta com outra feita por Davino. O interesse de Gramani pela rabeca gerou também uma pesquisa publicada em 2002 no livro póstumo Rabeca, o som inesperado, organizado por sua filha Daniella Gramani).
Segundo Davino, a rabeca, por não ter os pontos marcados, é mais fácil de fazer, porém mais difícil de tocar do que a viola. Para a viola ter um som mais bonito, ele conta que o segredo é colocar dentro dela um algodão com ovo de mamangava. Entretanto, é importante fazer isto reservadamente, pois, caso alguém veja o ovo sendo colocado o efeito é contrário.
“Aí arruína a viola, aí a viola não presta mais...”
Um fio de cabelo também pode estragar a viola.
Caiu um fio de cabelo na viola, cega a viola. A gente criança aprende com os mais velhos as coisas.
Com os mais velhos, Davino aprende também histórias de saci e de Pedro Malasartes.
“O Pedro Malasartes enganava os outros, matava o porco dos outros, levava o porco do chiqueiro e enterrava o rabo do porco de cabeça pra baixo, Chegava lá: “Oi, seus porcos está tudo enterrado lá no chiqueiro”. O homem ia lá, era só o rabo do porco, arrancava, não tinha porco”.
Davino foi casado por um breve período e teve apenas um filho, que mora em Paranaguá e com quem tem pouco contato. Trabalho em lavoura, com transporte de caminhão e como pedreiro. Atualmente é aposentado.
Discografia
Em 1982, participou da gravação do LP Cananéia: tradição musical e religiosa, produzido pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
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Di Freitas
por Antonio Madureira
Conheci Di Freitas em 2005, quando fazia com o Quarteto Romançal o Sonora Brasil, Circuito Nacional de Música do SESC. Foi lá, em Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, que encontrei Francisco, este grande artista. Sem dúvida um encontro memorável. Na ocasião, conversamos longamente sobre música, pesquisas e sonhos. Di Freitas contou das suas atividades na área pedagógica e que desenvolvia uma original luteria. Muito me tocou sua descrição do trabalho que realizava junto aos alunos da APAE e da criação de uma orquestra de rabecas.
Logo após o nosso concerto, fui à oficina ver de perto sua arte de criar recriar instrumentos musicais.
Trabalhando artesanalmente materiais alternativos e recicláveis, age coerentemente com a realidade sócio-econômica do seu campo de ação.
No momento, tenho a oportunidade de conhecê-lo como instrumentista e compositor. Seu disco é um inventário das sonoridades nordestinas. Repertório que segue antigas rotas levando-nos às origens. Seus arcos musicais, por ele mesmo construídos, refazem pontes, religando-nos à nossa ancestralidade.
Os toques da rabeca e do marimbau fazem ressoar um passado mouro; belo momento cantado revisita a tradição ibérica do romanceiro. O pulsar do sangue afro responde ao baque virado do maracatu nação, e a tradição cariri se faz presente nas flautas e pífanos.
O Selo SESC, com maestria, vem garimpando preciosidades da produção musical contemporânea, criando assim um catálogo fonográfico de referência nacional.
Hoje se renovam a alegria e emoção daquele encontro no Ceará. Com este trabalho, Di Freitas mostra a sua forte musicalidade, tecendo um tapete sonoro legítimo de um músico brasileiro.
Antonio Madureira é compositor e maestro, regente do Quarteto Romançal
Discografia
Contato
Telefone: 11 – 3151-3617 / 9172 - 4010
Circus Produções - www.circusproduções.com.br
email: guto@circusproduções.com.br
Site: www.myspace.com/difreitas
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Julio Pereira é citado por muitos fandangueiros de Paranaguá como um dos mais importantes construtores de instrumentos de fandango. Nasceu em 1929, em Araçaúba, no Ariri, distrito de Cananéia. Mudou-se com sua família, para Rio dos Patos ainda criança. Mora atualmente no Itimirm pequena vila localizada junto ao rio de mesmo nome, em Paranaguá. É neto de Adauto José Pereira e filho de João Bento Franklin Pereira de Assunção, fandagueiros renomados que tocavam e construíam instrumentos.
“Meu avô é a raiz dos Pereira. Ele fazia tudo que a gente queria: rabeca, cavaquinho, viola (...) Aquele posto que tem lá (no Ariri, em Cananéia, onde Adauto morava), de escola, foi ele que ajudou a construir. Ele e um tal de Morais fizeram um aterro lá. Isso tem mais de cem anos. Depois que ele já não pôde trabalhar em roça, ele só fazia viola, essas coisas. Era marceneiro. Rabeca, eu não vi ele tocar, mas decerto tocava, porque ele pegava num cavaquinho – naquele tempo nem tinha cavaquinho, era machete, uma violinha pequena – ele ponteava num machete daqueles. (...) Foi meu pai quem levou as fôrmas da viola, com essa que eu tenho ali, que ele começou a fazer, para casa. Quando tinha dezessete anos, eu peguei a fazer. A primeira não saiu bem boa não, mas já deu para enganar. (...) O meu avô, naquele tempo, para um neto entrar onde meu avô tava trabalhando, precisava... Era um salãozinho do tamanho desse aqui onde fazia as violas, as coisas dele. E às vezes a gente ia lá e ficava assim, olhando. “Ah, você quer aprender? Pode olhar daí. Não precisa entrar ai. Para aprender, basta olhar”. (...) Aprendi olhando o que eles faziam. A gente tinha boa idéia, não precisava dizer como era, a gente pegava a olhar, né? Depois ia assentando as peças e dava certo. Como deu certo, né? O professor fui eu!”
Julio relembra como eram os antigos fandangos e os grandes tocadores do Ariri.
“Ainda me lembro dos fandangos que tinha lá. Era fandango bom mesmo. Meus irmãos mais velhos dançavam, meus tios. Tocador de viola bom. (...) No fandango, antigamente, tocavam mais marca, mais moda. Mas a dança era o mesmo que em Guaraqueçaba. A dança deles no Valadares é diferente da nossa. O nosso era do tipo de Guaraqueçaba. (...) O fandango tinha no sábado, manhã de domingo, pelo carnaval... Naquele tempo, dançavam quarta à noite, pelo Carnaval. Batido, não era dessezinhos de agora, não. Nossos tamancos pesavam um quilo cada um! (...) Quando eu era bem pequeno, tinha um tal de Afonso Barbosa. Tocava bem viola. Os tios meus, Paulo, Bento, Eugênio Camilo tocavam bem viola”.
Dos dez filhos de Julio, Urbano Pereira, nascido em 1956 foi o único que aprendeu a tocar fandango e construir instrumentos.
“No meu tempo, ainda alcancei bem. Foi tempo de minha vó, meus tios. Minha avó (Francisca Dias) fazia cada fandango bonito! Amanhecia, né? Peixinho no fogo, carne do mato. Fazia aquele fogo assim, assava aqueles peixes de manhã, aquele café muito grande, cada copo uma caneca. (...) E quando não tinha mutirão, às vezes ainda fazia fandango! Inventava o fandango. Chegava à tarde: “Vamos no fandango?”, “Vamos”. Acendia o lampião e levava no caminho. O caminho era longe. E quando chegava no fandango, já tinha gente dançando. (Urbano)”.
Os Pereira foram aos poucos saindo de Rio dos Patos. Ao chegar em Paranaguá, antes de se mudar para o Itimirim, Julio morou três ou quatro anos em Valadares, onde trabalhou na construção de um restaurante.
“Foi saindo os pessoal, morrendo um pouco. Meu irmão (Julino Pereira) Por último, que é vivo, não podia mais trabalhar. Os mais novo já não fazia o que nós fazia quase. Plantação, eles quase não cuidava mesmo. Foi saindo, saindo, hoje não tem ninguém lá. Tá tudo mato. Faz vinte anos que eu não vou lá, eu acho”.
Julio Pereira continua fabricando instrumentos, como viola, rabeca, cavaquinho, mas toca pouco viola. Leva em média um mês para construir uma viola ou uma rabeca. Já vendeu instrumento para São Paulo, Rio e Janeiro e Paraíba. Julio faz a viola na fôrma, usando as madeiras caxeta, cambará e coroba. Usa cola industrializada, diferentemente de seu avô. Adauto, que usava sumbarê, uma planta comum no local.
Os enfeites da viola são feitos de canela e brejaúva. A cravelha é feita em canela e araribá. Como ferramentas, são usados machados, facão, cepilho e formão. Julio ensina que a caxeta usada para a construção dos instrumentos deve ser tirada em lua minguante, para a madeira não rachar. Seu processo de construção de instrumentos foi registrado pelo músico e pesquisador Jose Eduardo Gramani e publicado, em 2003, no livro Rabeca, o som inesperado. Julio participou também do livro Tocadores, lançado em 2002.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006
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Tinha que dançar o fandango. Uma pinguinha pra aqui, uma pinguinha pra ali. Ai o fandango estava feito. Mas ia trabalhar mais no mutirão, porque você vê: batia uma moda valsada e uma moda batida, até oito horas do outro dia. Já numa noite cumprida dessas aí, já era bem sacrificoso. Mas era o uso do povo, eles gostavam daquilo. Meia noite tinha uma parada, porque no mutirão tinha uma janta à meia-noite. Ai jantavam meia-noite, nem descasavam. Aquele que ia descansar, descansava no salão lá, ficava dançando. Isso era independente da sala do fandango. Ai só acabavam de comer meio atrapalhado, lavava a mão ali e entravam no fandango novamente. Não paravam o fandango.
Leonildo Fidelis Pereira toca rabeca e viola, além de construir instrumentos. Nasce em Araçaúba, município de Cananéia, em 1942, mas só foi registrado no ano seguinte.É filho de Vicente José Pereira e Maria Augusta Pereira e neto de João Bento Franklin Pereira de Assunção e Isabel Cordeiro da Costa. Com apenas quinze dias, foi morar com a família em Rio dos Patos e lá viveu por mais de cinqüenta anos.
“Com idade de oito anos, eu encostei no meu pai para aprender a tocar o fandango. E de mais, tinham os violeiros daqui mesmo, aqui no Paraná, tinha violeiro bom, violeiro mesmo, daqueles que hoje já morreram pras pessoas”.
Em Rio dos Patos, Leonildo participava dos mutirões e fandangos que geralmente aconteciam aos sábados e se estendiam até a manhã do dia seguinte, na chamada domingueira.
“Não tinha hora de descanso, se seis ficavam pra lá, ficavam dançando e você via essa moçada, ou dez, porque tinha quarenta pessoas, quarenta homens, naquele tempo de trabalho. Então não acabava o fandango, até oito horas. Quando o patrão era bom, e que o povo gostava também, quando que ia amanhecendo ele fechava todas as portas, para que não visse o claro do dia, para o povo dançar é mais. Então quando eles já tavam cansados, ele abria a porta, era o que? Oito, nove horas do dia. O fandango tava ali, mas o fandango era bonito! Hoje não tem fandango bonito que nem naquele tempo! O povo gostava ninguém brigava, ninguém fazia nada”.
Leonildo aprendeu tocar e construir instrumentos de fandango com sua família. Toca viola utilizando a afinação chamada intaivada, a mais comum entre os tocadores de fandango de Rio dos Patos e de localidades vizinhas. Constrói instrumentos de cocho, como aprendeu com os antigos.
“Começou com o seu Franklin, ai depois passou a fazer padrinho Julino, que é filho dele, tornaram a fazer também, aquelas violas meio encabuladas, o machete, mas faziam, tava valendo. Ai que o meu avô me deu uma bunda de viola, aqui na Rita mesmo, ele me deu, que eu sabia tocar viola, aí eu fiquei com aquela bunda de viola, tocando viola, saia pro fandango e levava aquela bunda de viola, não tinha outra. (...) Primeiro tinha o meu avô Franklin, segundo tinha o meu avô Silvino, pelo lado da minha mãe, depois vinham os mais novos, que são já os filhos deles, que são os meus pais hoje, já tinha o Andrino, já tinha Julino, que é esse que mora ali (no Rio da Rita), tocador de viola. Mais esperto pra gostar de fandango era o Andrino, esse que morreu, foi meu professor. Tinha Paulo Bento, era do lado da minha mãe, Costa, tinha Francisco Bento, irmão de Paulo Bento, o tocador melhor de rabeca que eu vi, que por aqui não tinha, igual a ele não tinha. Tinha mais o Vitorino, irmão da minha mãe, também era um violeiro, mestre de romaria, o meu pai também era tocador de viola, cantava bem alto, mas eu gostava dele, eu sempre aprendi com ele”.
Leonildo, bastante respeitado pelo seu conhecimento das diversas marcas do fandango, é chamado de professor por outros fandangueiros.
“Essas modas tudo eu sei. As modas valsadas que eles deixaram muito hoje, agora, moda batida não se esquece, não esqueço, sempre fica cabeça. O camarada pede, a gente já canta. Agora, as modas que a gente deixou, são as modas valsados, esses deixaram muito, até eu deixei, porque caber na cabeça da gente um tanto daqueles não é brincadeira”.
Depois que saiu do Rio dos Patos, Leonildo morou alguns anos no Varadouro. Teve dez filhos, entre eles Aguinardo, que nasceu em Rio dos Patos, em 1974. Aguinardo é seu único filho que aprenderu a tocar fandango. Atualmente Leonildo mora no Abacateiro, pequena localidade perto de Vila Fátima, em Guaraqueçaba.
Leonildo Pereira é o mestre do grupo Família Pereira, que já lançou dois CDs: Viola Fandangueira, de 2002, e Fadango de Mutirão, de 2003. Além das apresentações com o grupo, com freqüência é convidado para ensinar fandango em oficinas realizadas principalmente em Curitiba.
“Isso pra sair pra fora foi quase um sonho, realizado um sonho que jamais você diria ver. Conhecer São Paulo, conhecer Curitiba, você nunca iria pensar em outra idéia. “Viemos aqui, vir pra chamar vocês pra nós gravar”. Fique meio tremendão, ai não teve coisa disse: “Como? Gravar, gravar o que?” Gravar, aquilo a gente grava, mas sabe lá, a gente ia pra gravadora, sei lá o que é essa tal de gravadora. Fomo pra lá. Chegamos lá, e se apronta e vai, entra pra dentro lá (...) Pra falar era só por aceno pros outros. Começaram a gravar, uma, duas modas, descansa um pouquinho, vamos ver o que é que valeu. Disse: “Essa ta valendo!” E se está valendo, então, vamos até o fim com uma gravação dessas. Nós nunca chegamos aqui e já está valendo. Não estamos errado, então, vou dar de tudo (...) Daqui a esperança de mais ainda, mais gravação, porque depois a gente morre e fica aí menos história pra escutar...”
Leonildo Pereira é um dos fandangueiros que mais circula pela região, participando com freqüência de fandangos realizados em Barra de Superagui, Vila Fátima e Varra do Ararapira, comunidades da Ilha Superagui.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006
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Manoel Severino Martins, Mané Pitunga
Nasceu no engenho Boa Vista, município de Itambé, em 29 de Maio de 1930. Desde pequeno herdou o apelido do pai, Severino Marcolino Martins, também conhecido como Severino Pitunga. Ao longo de sua vida Pitunga trabalhou nas mais variadas atividades ligadas à roça e à lavoura de cana-de-açúcar, e também exerceu os ofícios de carpinteiro, barbeiro e marceneiro.
(PACHECO & ABREU, 2001)
Da rabeca de Pitunga saiu muito forró, Cavalo-Marinho, e som para as brincadeiras de Babau, antiga tradição de teatro de Mamulengos popular na Zona da Mata Norte de Pernambuco. No entanto, o que faz de Pitunga um personagem único na história da rabeca no Brasil não foram suas habilidades como músico. Mané Pitunga foi um hábil mestre construtor de rabecas.
De Luthier, Pitunga não tinha nem o nome. Era um rabequista, ou rabequeiro. Um cabra que gostava de zuada e brincadeira. Suas rabecas, hoje, alcançam alto preço e são muito raramente encontradas para venda.
Pitunga faleceu em 2002, e suas rabecas até hoje não encontraram semelhança em nenhum dos fazedores de rabeca da mesma região.
A exposição "Rabecas de Mané Pitunga" foi organizada por Gustavo Pacheco e Maria Clara Abreu na Sala do Artista Popular do Museu do Folclore Edison Carneiro.
http://rabequeiros.blogspot.com/2009/02/pitunga-parte-ii.html
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O caipira que eu conheço é o cara que nasceu lá no mato, mora no mato, vive do mato, colhe do mato, faz instrumento lá no mato, aprende a tocar no mato e canta o que é do mato. O que é dele, a natureza dele. O que vem da cabeça dele. Ele canta, toca esse que é ele. É caipira, só toca música caipira. Eu sou caipira. Eu sou caipira, toco caipira, minha viola é caipira.
Martinho dos Santos é violeiro e construtor de instrumentos. Nasceu no Rio Sagrado, Morretes, em 1933. É filho de Arselina Maria Rosa e de Manoel dos Santos Cabral, também violeiro e construtor de instrumentos.
“Uma mãe de geração ilhéu e um pai de geração bugra. Então, eu não sei se sou bugre, se sou ilhéu, não sei se sou português, não sei o que sou. Eu sei que eu também fiquei no mato. Meu pai pegou a minha mãe aqui e subiu pro mato, foi morar lá na tal de Canavieira”.
Na infância, quando moravam em Canavieira, na área rural de Morretes, o pai de Martinho ia para a cidade apenas para comprar sal e açúcar. O resto eles plantavam colhiam e caçavam.
“Tinha no que se virar, ninguém passava necessidade. Depois que viemos pra cidade, passemos fome que Deus nos livre! Tinha dia que não tinha nada pra comer, a gente urrava. Trabalhava durante o dia sem nada”.
Aos doze anos de idade, mudou-se para o centro Morretes, onde mora até hoje. Naquela época, Martinho começou a acompanhar o pai nos pixirões. Ele descreve que, às vezes, reuniam-se cerca de cinqüenta pessoas para roçar e que, à noite, o fandango animava a festa.
“Tinha receio de chegar no fandango. Chegava no salão ficava do lado de fora todo assustado, que nem filho de urubu que se espanta com gente”.
Martinho trabalhou na roça e também como carpinteiro. Hoje, faz da construção e venda de instrumentos uma forma de complementar sua aposentadoria. Ele constrói viola, rabeca, bandolim, cavaquinho e banjo.
“Isso eu aprendi sozinho, como Deus me ensinou e como Deus me ajudou. Me deu na cabeça que eu devia tocar viola. Um dia eu peguei uma viola e fiz da folha de um coqueiro que aqui eles tratam de indaiá. Eu tocava naquilo ali”!
Mais tarde, construiu sua primeira viola de caxeta. Seu pai lhe ajudou apenas a acertar os pontos. Observando escondido o pai, aprendeu a tocar viola.
“E eu fui aprendendo a tocar ali. Tudo que ele ia fazendo, eu ia fazendo também. Aprendi assim, mas sondando ele pelo buraco”.
Dos treze filhos de Manoel, Martinho foi o único que deu continuidade à tradição dos fandango. Dos seis filhos de Martinho, nenhum sabe tocar e apenas Josiane ajuda o pai em sua oficina.
Martinho participou do antigo grupo de fandango de Morretes. No ano de 1985, ele e seu pai expuseram seus instrumentos na Sala do Artista Popular, no escritório regional da FUNARTE em Curitiba. Na ocasião, foi publicado pequeno catálogo da exposição com fotos e textos sobre a vida e sobre a forma de construir instrumentos do pai e do filho. Seu trabalho como construtor também está presente na publicação Rabeca, um som inesperado, pesquisa de José Eduardo Gramani, lançada em 2002. Martinho é sempre convidado para tocar fandango e contar suas histórias na Festa Feira, organizada anualmente pela Prefeitura de Morretes.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006
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Nelson da Rabeca, como ele é conhecido por todos. Músico e luthier autodidata de 80 anos, sorriso fácil e simplicidade que irradia uma mágica tão incrível quanto sua história com a música.
Em 2008, Nelson da Rabeca lançou seu terceiro CD “O Segredo das Árvores”, com apoio da Petrobras e Ministério da Cultura. São 21 composições da mais autêntica música rural. Neste mesmo ano, lançou também o primeiro DVD, onde o público pode captar toda a beleza e poesia do artista.
Ele conta que já fez e vendeu mais de cinco mil rabecas “pelo meio do mundo”, e que gosta mais de tocar que de fazer o instrumento, “gosto também, mas tocar é como uma pessoa que dirige um carro. Vai pra onde quer”. Seu filho, Gilson, também começou a tocar e se apresenta na praia do Francês, seguindo os passos do pai.
Nelson participou de duas edições do Circuito Nacional de Música Sonora Brasil, fez algumas turnês, sempre acompanhado de Dona Benedita. A esposa sente saudades de viajar, “é bom demais, nem fale que dá vontade de ir embora de novo, conhecemos tantos lugares e pessoas tão legais”.
Fonte - http://www.overmundo.com.br/overblog/nelson-da-rabeca-e-o-segredo-das-arvores
Nelson franco, conhecido como Pica-pau, é construtor de instrumentos e toca quase todos os instrumentos de corda. Nasceu em 1944, no Sítio Pinheirinho, na parte continental do município de Cananéia, onde reside até hoje. É filho de Maria Luisa Godoy Franco e Joaquim Franco e teve doze irmãos.
“Ele (pai) não sabia fazer nada. Ele fazia outras coisas cabo de machado, cabo de foice, remo, mas negócio de viola, não. Também não sabia tocar. Nós aprendemos por dom mesmo. Da nossa família, nenhuma. Só meu tio João que sabe tocar viola, sabe tocar cavaquinho, sabe bater pandeiro, mas não se inclinou a fazer. (...) Eu aprendi a fazer viola com meu irmão, eu com meu irmão que fazia. Nós aprendemos a fazer viola nós sozinhos. Nós ia ao baile, aí nós ficava olhando aquelas viola, de Iguape, finado Januário, finado João Mendonça, finado. Servininho, então, praticava. O negocio é assim: ficava olhando aonde ele trabalhava. A gente queria aprender, ficava olhando o que eles faziam, o material... Fizemos o primeiro, não deu certo, fizemos o segundo, não deu certo, aí do terceiro já foi saindo mais bem feito. Aí, nós tamos fazendo até hoje (...) Finado Januário era morador de Iguape. Agora finado Servinho era morador de Cananéia. Finado João Mendonça era morador de Cananéia também”.
O apelido Pica-pau é o mesmo de seu irmão, Zildo Franco, um dos principais construtores de instrumentos de Cananéia. Os dois ganharam o apelido por conta da habilidade no trabalho com a madeira. Problemas de saúde afastaram Zildo da fabricação, mas muitos tocadores da região ainda tocam em instrumentos feitos por ele, como os integrantes do grupo Violas de Ouro de São Paulo Bagre.
“É ele é mais velho um ano. Pouquinha diferença. Ele ta pra Parriquera-Açu. Ficou doente, aí levaram. Não podia fazer mais nada. Até levaram para lá as fôrmas dele, mas até hoje não faz mais nada. É esquecido da mão dele, teve derrame”.
Nelson faz as próprias fôrmas que utiliza para tirar o molde do instrumentos.
“Isso aqui é uma tábua, risca a viola e faz por aqui. Depois a gente amarra, põe os preguinhos e amarra, põe a borracha pra segurar. Ai depois que tá bem coladinho, tira e vai fazer o material todo. (...) Como era feita antigamente a gente lavrava, partia com a foice e deixava bem fininho, pra depois passar a plaina. Hoje em dia ficou mais fácil. Mas a turma pede mais do jeito que era primeiro mesmo. Porque muita gente encomenda uma viola: “Não, mas eu quero assim mesmo, feito a canivete”. Porque a das vendas é feito na fôrma, feito no torno, tudo, nem o aro não é, às vezes é um compensado. E esse aqui não, é aro pronto, feito mesmo”.
Para colar as partes da viola, Nelson utilizava sumbarê assada em brasa, mas atualmente já prefere cola industrializada.
“Sumbarê durava, só que não podia deixar na umidade, que descolava. Foi muito tempo aquilo. Agora, com essa cola, cascolar, a gente já faz com essa cola, então, pode até jogar na chuva, que não descola. Uma viola, se ninguém quebrar ela, ela vai uns vinte e cinco anos a trinta anos a quase cinqüenta anos. Seu João irmão de Valdemiro, ele tá com uma viola que tá com quase sessenta anos que é do feito do finado Januário. E tá com ele ainda, tá boa. Já reformei uma vez, ele guarda muito bem guardado essa viola. Seu João Benedito mora lá em Cananéia. Então é o que eu digo: essa viola, sabendo zelar... Ainda mais com essas colas agora, que essa cola são boas”.
Nelson faz viola com tarraxa ou cravelhas de canela. Para afinar a viola, herdou os pontos de Januário, construtor de instrumentos de Iguape.
“Aqui tem uma escala. Essa escala aqui é tudo na medida certa. Essa aqui é do vilão (...) Porque eu tenho escala de cavaquinho, da sertaneja, meia viola, viola inteira. Porque tem a viola de doze pontos, a viola só de onze pontos e a de dez pontos, que é a três quartos. Então uma não dá certo com a outra. Se o senhor mandar fazer uma de três quartos, já tem que ser uma outra escala, pra poder ser o tamanho do cavalete na pestana”.
Nelson não se casou. Atualmente seu sustento vem do trabalho com pesca e da fabricação e reparo de canoas, baleeiras e outras embarcações de madeira. Sua produção de instrumentos é sazonal.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006
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Mestre Salú ou Salustiano – Manoel Salustiano Soares
Manoel Salustiano Soares, conhecido como Mestre Salustiano ou Mestre Salu nasceu em Aliança, zona da mata norte de Pernambuco, no dia 12 de novembro de 1945.
Foi um dos maiores dançadores de cavalo-marinho da região, interpretando diversos personagens: arrelequim, dama, galante, contador de toada, Mateus (durante nove anos), recebendo por isso o título de mestre. É considerado um dos grandes nomes do maracatu em Pernambuco, uma das maiores autoridades em cultura popular no Estado e o precursor ou “patrono espritual” do manguebeat.
Fundou o Maracatu Piaba de Ouro, em 1997, tendo participado com o grupo do festival de Cultura Caribeña, em Cuba. É o comandante do cavalo-marinho Boi Matuto, que criou em 1968, e do Mamulengo Alegre.
Mestre Salustiano também foi um artesão. Além das rabecas é ele quem confecciona os bichos do bumba-meu-boi, cavalo, boi, burra; as máscaras do cavalo-marinho, feitas de couro de bode ou de boi e os mamulengos de mulungu.
Foi um dos grandes responsáveis pela preservação da ciranda, do pastoril, do coco, do maracatu, do caboclinho, do mamulengo, do forró, do improviso da viola e de outros folguedos populares do folclore nordestino.
31.08.2008 - Morreu por volta das 7h30 deste domingo, em Recife (PE), Manoel Salustiano Soares, 62, o Mestre Salu, um dos maiores rabequeiros do país. O músico, que estava internado havia uma semana no Procape (Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco), foi vítima de arritmia cardíaca provocada pela doença de Chagas.
Mestre Salu tinha a doença de Chagas (causada por um protozoário e transmitida pelo barbeiro) havia cerca de 20 anos.
Fonte Lúcia Gaspar - Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco - pesquisaescolar@fundaj.gov.br
Mestre Silvino, Silvino Veras D`Ávila, da Cidade de Iralçuba, mais precisamente no Distrito de Juá, distante 20 Km da sede a beira de enorme açude. Nascido em 5 de Setembro de 1917, Mestre Silvino é um senhor alegre, muito ligado à seu instrumento. Mesmo apresentando grande dificuldade para enxergar, continua fabricando rabecas com pedaços de pinho de caixotes trazido por parentes. A vegetação local é de suma importância para o trabalho do mestre, pois ele usa raízes de Juazeiro para fazer as laterais do seu instrumento (segundo ele os bichos não comem esta madeira). Já usou Cumaru e Imburana-de-Cheiro, mas o pinho é a madeira preferida pelo mestre.
Suas rabecas são feitas em forma, ou seja, são encaixadas e coladas em uma peça cheia de pregos com o formato do instrumento. Silvino usa 4 cordas de violão de aço, afinadas como um violino: 1ª MI, 2ª LA, 3ª RE e 4ª SOL (da corda aguda para a grave). Seus instrumentos ficaram famosos devido à pintura, que usa como base a tinta vermelha de caneta esferográfica. Porém este processo é menos utilizado hoje em dia, já que os compradores preferem rabecas sem verniz, onde apareça a cor natural da madeira.
O primeiro serviço como luthier foi concertar um violino quebrado, e desde então vem fazendo rabecas. Como a maioria dos artesãos da região, também aprendeu este ofício sozinho, observando e fazendo suas experimentações.
Seus arcos são uma história a parte. Os processos utilizados pelo mestre para resolver os problemas técnicos relacionados ao arco são extremamente engenhosos. Utiliza um aro de bicicleta para fazer toda a engrenagem, possibilitando tencionar e folgar a crina, que no caso do mestre Silvino é feito com linha de nylon.
Suas rabecas são pequenas, muito leves e com boa sonoridade, mas devido a pouca visão do Mestre, o acabamento é bem rústico. O pinho de caixotes também é utilizado para confeccionar o espelho. Cavalete e estandarte são feitos de madeira e a pestana é esculpida em osso.
Seus filhos e netos, até o momento da entrevista, não demonstram interesse em aprender e dar continuidade à arte de Mestre Silvino, que hoje é reconhecido com Mestre da Cultura pelo Governo do Estado do Ceará.
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Meu trabalho consiste em construir instrumentos musicais usados em festas populares.
Procuro fazer os instrumentos usando a mesma matéria-prima com que eles eram construídos no passado. Uso ferramentas que, na maioria das vezes, eu mesmo faço e também desenvolvi alguns materiais como cola, verniz e cera.
Com esse trabalho tento manter conosco os timbres que vão sendo esquecidos e manter viva uma tradição herdada e praticada desde o tempo do Brasil colonial.
Não sou um pesquisador acadêmico, tudo o que sei e falo é fruto de vivência e convivência que tenho com os festeiros, os índios, os caipiras, os caiçaras...
Só faço instrumentos que representam a minha realidade e as minhas experiências pessoais, que aprendi como testemunha da mais pura tradição paulista.

Rabeca de Cabaça

Rabeca Tradicional

Rabeca Medieval

Fonte: http://www.barroecordas.com.br
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Zé Côco do Riachao (1912 - 1998)
José dos Reis Barbosa dos Santos - Zé Coco do Riachão
O dicionário Cravo Albin da Música Brasileira nos conta que José dos Reis Barbosa dos Santos nasceu em 1912 em Brasília de Minas, MG e foi "Criado na localidade de Riachão, onde nasceu, às margens do rio que leva o mesmo nome, na confluência dos municípios de Mirabela e Brasília de Minas, no Vale do São Francisco. O pai era fazedor e tocador de violas. No momento de seu nascimento, passava uma folia-de-reis e ele foi consagrado pela mãe aos santos Reis; por isso "dos Reis" registrado em cartório. Zé Coco deixava claro sua devoção aos Santos Reis, e sempre se apresentava como José Reis Barbosa dos Santos.
Ouvindo seu pai tocar desde que nasceu, aos 8 anos, já tocava viola que ele mesmo ia aprendendo a fazer. Foi marceneiro, carpinteiro, ferreiro, sapateiro, fazedor de cancelas, de engenho, de carro de boi, curral de tira, roda de rolar mandioca, mas o que o tornou conhecido, inclusive internacionalmente, foi a excelência dos instrumentos que fabricava e tocava: viola, violão, cavaquinho e rebeca. Aos vinte anos, assumiu a pequena fábrica de instrumentos de seu pai."
Construída no ano de 1985, esta rabeca apresenta belíssimo trabalho de marchetaria no tampo, no espelho e no estandarte. As bolinhas brancas parecem ser uma marca dos intrumentos fabricados pelo Mestre Zé Coco do Riachão.
Eu não tocava muito, mas encasquetava aquela música, depois eu ia pra casa – que tinha rabeca em casa, do meu irmão – eu ia tocar aquela música. Tocar não, quer dizer, lidar pra aprender, teimar, teimosia mesmo. Eu era teimoso, e fui indo até aprender aquelas músicas que meu tio tocava.
José Pereira nasceu em 1951, no Rio dos Patos, em Guaraqueçaba. É filho de Vicente José Pereira e Maria Augusta Costa. Aos trinta e um anos, casou-se e foi morar no Varadouro, em Cananéia, onde mora até hoje. Zé Pereira é conhecido como grande rabequista e violeiro, e toca também viola caipira, violão e violeiro, e toca também viola caipira, violão, cavaquinho, surdo e pandeiro, além de saber fazer todos estes instrumentos. Na infância, em Rio dos Patos, sua família vivia de pesca, caça e plantação.
“Passarinhada de bodoque, que a gente usava muito, se juntava quatro ou cinco, pra passarinhar. Naquele tempo não tinha condição de nada. O pessoal caçava também, tinha caça demais da conta, peixe... Fartura. Essas coisas que a gente lembra, brinquedo. Trepava quatro ou cinco numa árvore, derrubava pra sentir o choque. Roça, também, que a gente cuidava mais de roça, a gente vivia só de roça. Palmito, essas coisa de hoje, não tinha. Era só roça. Roça de arroz, milho, rama criação de galinha... O mantimento, quando não tinha de fora z– o mantimento que eu trato é a mistura, pro feijão e arroz - , a gente matava galinha, porco também tinha... Era farto, aquele tempo”.
Desde cedo, Zé Pereira acompanhava os pais e os irmãos nos fandangos da região.
“Ah, do meu tempo eu lembro do mutirão, do fandangada... Ia até erguido. O pai da gente levava na cacunda, no ombro, assim. Trabalhava o dia e não levava nós, de noite eles se aprontavam e levava nós, quer dizer, aquele cabra mais pequeno ia na canoa, ou no braço, porque tinha muito, né? Lá a gente ficava sentadinho, no fandango. Ai tinha a janta da tarde, o cafezinho da noite... Ai a gente dormia ali mesmo, debaixo do banco, aquelas coisas. A gente acordava porque o batido, o sapateado era demais, começava a machucar a cabeça da gente no assoalho, então, a gente acordava com aquele choque. A mãe pegava, levava a gente pra cozinha, sarava lá um poço e ia de novo pra jangada”.
Aos doze anos, aprendeu a tocar rabeca, em um instrumento emprestado pelo irmão Leonildo. Zé era tão pequeno, que tocava a rabeca apoiada em seu colo, em posição vertical, e não apoiada no braço. Mesmo depois de crescido, manteve o modo de tocar. Alguns jovens, que aprenderam rabeca com ele também acabaram seguindo o mesmo modo de empunhar o instrumento, como Laurinei Neve, da Ilha do Cardoso, em Cananéia.
“Por causa do tamanho, porque meu bracinho era mínimo, e não dava pra fazer isso. Dava, mas ficava diferente, porque não tinha essa distância. Então, foi preciso aprender assim, de cabeça pra baixo!(...) Naquele tempo as crianças eram meio acanhadas, não tinham voz, não falavam com ninguém... Mas eu sabia tocar, já. Pegava a rabeca, entrava naquele porãozinho e começava a tocar lá dentro, encolhido. O pessoal gostava, mas eu não tinha coragem de falar com eles. Vergonha, né? Muito envergonhado. E não era só eu, todas as crianças eram assim (...) É como eu digo, as criançada do meu tempo era tudo acuada, não tinha coragem, era envergonhado. Então, eu comecei a tocar fandango mesmo de vinte e cinco anos pra cá, de vinte e três pra vinte e cinco. Aí é que eu me despachei, toque fandango pro povo, fui convidado pra tocar, essas coisas. Antes disso, sabia, mas não tinha coragem”.
Entre os grandes tocadores que viu, Zé lembra do tio, Francisco Bento, e do sogro, Eugênio Camilo, que moravam no Varadouro, mas freqüentavam Rio dos Patos. Julino Pereira, seu tio, era quem tocava e fazia as rabecas em Rio dos Patos. Zé Pereira conta que aprender vendo o tio fazer e logo começou também a vender as rabecas que construía. Aos quinze anos, aprendeu a tocar viola. Na época, não havia quem soubesse fazer o instrumentos na região e as violas vinham de Maruja, na Ilha do Cardoso, e de outras localidades de Cananéia. Mais tarde, Zé aprendeu a fazer violas, de aro e de cocho.
Zé Pereira integrou o grupo de fandango Família Pereira e participou do livro Tocadores, de 2002, e dos CDs Viola Fandangueira, de 2002, e Fandango de Mutirão, de 2003. Desde então, Zé deixou de integrar o grupo e, sem parceiro, passou a cantar na primeira voz e a tocar rabeca fazendo uma segunda voz.
“Fiquei aqui sozinho com o Arnaldo, mas ele mora longe de mim (no Ariri). É, deu vontade de cantar em parceria, mas eu tava fora, não tinha jeito... Daí eu fui obrigado a fazer um negócio pra sair. Não sai muito, porque é meio nova essa dupla, mas já da pra brincar”.
O filho mais velho de Zé Pereira, Wilson, sabe tocar e construir o violão, além de também fazer viola e cavaquinho. Laerte, o segundo filho, faz barcos de caxeta e toca viola.
Umas quatro, cinco famílias, duas que fiquem, que gostem eles fazem pra não deixar cair, não deixar acabar.
Fonte: PIMENTEL, A. GRAMANI, D. CORREA, J. (ORG) -Museu vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006